Página Inicial Data de criação : 07/04/05 Última actualização : 09/10/16 04:05 / 24 Artigos publicados
 

NASCEU NESSA NOITE  Inserido Sunday 01 June 2008 18:09

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Nasceu nessa noite

...Liberdade...

 

Hoje apetece-me desenhar uma flor

                                           

 

                                             Meus compa-                                nheiros

                                 de jornada, Homens valoro-                  sos de trabalho, de

                        pois do silêncio da noite escura, como quem procura uma outra

                     es-   trada. Levantaram-se cedo e fizeram aquela doce madruga-

                           da. Nasceu nessa noiteàs três da manhã a Liberdade

                      na aldeia mais recôndita,  na vila mais insignificante,  em toda e

             qualquer cidade deste nosso Portugal, em que alguns estavam bem e mui-

            tos viviam mal, Nasceu nessa noiteàs três da manhã a Liberdade

       Lembras-te, pai? Estás sentado na velha cadeira de madeira onde cortaste

         tantos cabelos a crianças e lhes fizeste tantas barbas, já em adultos. Nos joelhos   

             repousas o velho bombardino de filarmonista. Na mão esquerda seguras

                 uma partitura com toda a ternura da tua mão forte e meiga, como quem   

                 segura um filho, com todo o cuidado para que não se magoe. Por detrás

              de ti avisto uma velha talha de barro onde se guardava a cal, aquela cal

                com que caiámos paredes onde projectámos tantos sonhos, em noites

             de verão, como se fosse a tela de um cinema, onde se contavam his-

                 tórias de outros tempos. Histórias da tua aldeia para os lados da ser-

              ra, de quando eras menino e, mais tarde, da tua juventude e do amor

                 da tua vida. É claro, também se contavam histórias da minha infân-

                  cia. Perdão, da nossa infância, porque também  tenho uma irmã

                 e gosto muito dela. Na    verdade, nesse tempo           con-   ta-

              vam-se   muitas históri-    as de bruxas       e lobi-

        somens que tanto assus-           ta-                  

                   vam o nosso           imaginário,      mas,

                      ao mesmo            tempo,     empolga-                                       vam e        

                                                  arregalavam os nos-                                   sos         o-

                                                  lhitos de crianças.  É                                ver-

                                                   dade,   antes de A-                                bril

                                                   havia bruxas mil,                              lobi-

                                                    somens  e outros                           seres

                                                    medonhos de as-  sus-                   tar

                                                     neste  nosso Por- tu-                   gal

                                                  à   beira-mar ador-  me-                cido.

                                                  E,            quan-    do não           comí-

                                                    a-          mos      a sopa,          a mal-

                                                    fada-      da e     inde-               sejá-

                                                        vel    cou-     ve                   bran-

                                                            ca  com feijão                 e na-

                                                              bos, lá vi-                       nha

                                                               a ame-                         aça:

 

- “Olha o homem do saco!...” Ou, então, “ ...Olha o cigano que te leva!....” Em último recurso, havia a colher de pau... Era remédio “santo”, a maior parte das vezes, em tantos e tantos honrados lares de gente pobre ou mais ou menos remediada.

Por seu lado, na escola de um país de analfabetos, governava a menina dos cinco olhos, “a bruxa má”,  a régua agressora, o terror das nossas mãos de crianças.

 Lembras-te, pai?

Todos sonhávamos, e ainda sonhamos, com uma vida melhor. Uns emigraram a salto (clandestinamente) ou legais para França, outros para a Alemanha, alguns para o Canadá e a Austrália (como o teu amigo Fernando, lembras-te, que fazia anos no mesmo dia que tu?). Alguns ainda foram para África trabalhar e muitos jovens, obrigados a lutar na guerra colonial, perderam a vida sem saberem porquê. Alguns desertaram e fugiram para França. Eu, mais cedo que tarde, talvez o fizesse também, se não tivesse acontecido Abril nas nossas vidas.  

Ainda me recordo com mágoa da morte de um jovem da nossa terra, que morreu na guerra de Angola. Pobre, Manel!  Não me recordo se era este o nome dele...

Na altura, com raiva e sem entender a razão da sua morte, até lhe dediquei um poema que mostrei a uma professora da escola onde estudava, a qual ficou admirada de eu escrever poesia e sobre temas como aquele, estávamos em 1973. Fiquei deveras triste com esta inútil e brutal morte.

Ainda guardo na memória aquela canto que passava na rádio de então, “Angola é nossa! Angola é nossa!...” Era “nossa”, de alguns, e os nossos jovens lá iam morrendo aos poucos, como carne para canhão, numa guerra que não era deles.

Lembras-te, pai?

Quantos rostos cansados de esperar, de vaguear numa vida sem sentido, com tanto sonho adiado ou destruído, como o do jovem que morreu na guerra. Quantas viúvas e órfãos ficaram à sua sorte, já quase sem lágrimas para chorarem? E quantas pessoas sem saber ler e escrever sobreviviam por todas essas terras do nosso Portugal? Foram tempos difíceis e de memórias amargas!

E nós morávamos perto da Estação e eu via passar os comboios e sonhava viajar neles e ser maquinista. Um dia ofereceste-me, pelo Natal, um comboio de plástico no sapatinho. Como eu fiquei feliz. Deve-te ter custado uns bons tostões. Sonhos e recordações de criança que nos tocam o coração.

Agora, tocas o bombardino, que refulge ao sol, parece uma estrela que brilha na minha memória. Talvez toques a “Terra da Fraternidade...” Quem sabe? Quem sabe?

Enquanto os teus dedos saltitam pelos “pistons” do bombardino, a velha oliveira, que está depois de ti, tudo escuta e acena com um ramo mais jovem, confirmando todas as histórias que me contas. Ao som da música, recordando...”dentro de ti, ó cidade...” um arrepio de emoção percorre-me, por inteiro, todo o ser.

Olha, pai, até me saiu um poema:

 

Nasceu nessa noite,

às três da manhã

 

No ventre das ruas,

a Primavera

 

No trinar de cada velha guitarra

Acordes de uma nova era

 

Em cada quarto gelado

O amor numa canção

Sem medo de o fazer

No coração de cada pessoa

Em todas as ruas da cidade

A alegria de viver

E nos cabelos

Embranquecidos

Dos poetas

A flor da Liberdade

 

“...Dentro de ti, ó cidade...”

 

 

Lembras-te, pai?

Os sonhos de Abril, o fim da guerra e dos presos políticos, a Liberdade e o futuro...

O futuro... O futuro pertence aos teus netos e aos filhos deles e por aí fora... A Joana quer ser pianista e o Pedro, arquitecto. A música e a arquitectura de novos sonhos em liberdade. Eles poderão não saber escolher, mas têm a liberdade que tu não tiveste, que nós não tivemos antes de Abril.

Mas, um belo dia também tivemos a liberdade de escolhermos e de plantarmos uma árvore no nosso quintal. Eu estimo-a e, quando posso, trato dela, rego-a, adubo-a e corto-lhe os ramos secos, para que ganhe força e cresça. Em troca ela dá-nos sombra e fruta e refresca-nos nos dias quentes de Verão. Quando me esqueço de a tratar, ela enfraquece e fica em risco.  A liberdade é como uma árvore. Temos de cuidar dela todos os dias, com muito amor e sabedoria. Precisamos saber escutá-la com todos os sentidos e em todos os sentidos e falar com ela com carinho, para que cresça, se fortaleça e dê frutos que nos alimentem a imaginação e a capacidade de sonhar com um futuro que satisfaça a todos.

Obrigado, pai, pela árvore que plantámos e pelo filme que fizemos juntos. A cassete chegou ao fim no vídeo.

Teu filho que te recorda com carinho e saudade, por teres partido num dia de Abril.

Saudades, pai...

 

 

 

[Autor: Martinho Branco]

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Todos os comentários feitos ao artigo :
NASCEU NESSA NOITE

  • Rosildo Oliveira mailto

    Tue 30 Dec 2008 20:21

    Lembrar das lembranças do pai...ser pai pode ser lembrado!...
    Tua poesia é o retrato deste elo., obrigado por tua escrita.
    RO

  • Formiga Branca (30-05-20

    Sun 01 Jun 2008 18:47

    Formiga Branca (30-05-2005)

    Gostei dos pensamentos...condizem com a tua barba. Um abraço.

    [Mensagem transferida do site - encerrado - http://martinhobranco.home.sapo.pt]