Nasceu nessa
noite
...Liberdade...
Hoje apetece-me desenhar uma
flor
Meus compa-
nheiros
de jornada, Homens valoro-
sos de trabalho, de
pois do silêncio da noite escura, como quem procura uma
outra
es- trada.
Levantaram-se cedo e fizeram aquela doce
madruga-
da.
Nasceu nessa noiteàs três
da manhã
a
Liberdade
na aldeia mais recôndita, na vila mais
insignificante, em
toda e
qualquer cidade deste nosso Portugal, em que alguns estavam bem e
mui-
tos viviam mal,
Nasceu nessa noiteàs três
da manhã
a
Liberdade
Lembras-te, pai? Estás sentado na velha cadeira de madeira
onde cortaste
tantos cabelos a crianças e lhes fizeste tantas barbas,
já em adultos. Nos joelhos
repousas o velho bombardino de filarmonista. Na mão esquerda
seguras
uma partitura com toda a ternura da tua mão forte e meiga,
como quem
segura um filho, com todo o cuidado para que não se magoe.
Por detrás
de ti avisto uma velha talha de barro onde se guardava a cal,
aquela cal
com que caiámos paredes onde projectámos tantos
sonhos, em noites
de verão, como se fosse a tela de um cinema, onde se
contavam his-
tórias de outros tempos. Histórias da tua aldeia para
os lados da ser-
ra, de quando eras menino e, mais tarde, da tua juventude e do
amor
da tua vida. É claro, também se contavam
histórias da minha infân-
cia. Perdão, da nossa infância, porque
também tenho
uma irmã
e gosto muito dela. Na verdade, nesse
tempo
con-
ta-
vam-se muitas
históri- as de
bruxas e
lobi-
somens que tanto assus-
ta-
vam o nosso
imaginário,
mas,
ao mesmo
tempo,
empolga-
vam e
arregalavam
os nos-
sos
o-
lhitos de crianças. É
ver-
dade,
antes de
A-
bril
havia bruxas mil,
lobi-
somens e
outros
seres
medonhos de as-
sus-
tar
neste nosso Por-
tu-
gal
à
beira-mar
ador- me-
cido.
E,
quan- do
não
comí-
a-
mos a
sopa,
a mal-
fada-
da
e
inde-
sejá-
vel
cou- ve
bran-
ca com
feijão
e na-
bos, lá vi-
nha
a ame-
aça:
- “Olha
o homem do saco!...” Ou, então, “ ...Olha o
cigano que te leva!....” Em último recurso, havia a
colher de pau... Era remédio “santo”, a maior
parte das vezes, em tantos e tantos honrados lares de gente pobre
ou mais ou menos remediada.
Por seu lado,
na escola de um país de analfabetos, governava a menina dos
cinco olhos, “a bruxa má”, a régua agressora, o
terror das nossas mãos de crianças.
Lembras-te,
pai?
Todos sonhávamos, e ainda sonhamos, com
uma vida melhor. Uns emigraram a salto (clandestinamente) ou legais
para França, outros para a Alemanha, alguns para o
Canadá e a Austrália (como o teu amigo Fernando,
lembras-te, que fazia anos no mesmo dia que tu?). Alguns ainda
foram para África trabalhar e muitos jovens, obrigados a
lutar na guerra colonial, perderam a vida sem saberem porquê.
Alguns desertaram e fugiram para França. Eu, mais cedo que
tarde, talvez o fizesse também, se não tivesse
acontecido Abril nas nossas vidas.
Ainda me
recordo com mágoa da morte de um jovem da nossa terra, que
morreu na guerra de Angola. Pobre, Manel! Não me recordo se era
este o nome dele...
Na altura,
com raiva e sem entender a razão da sua morte, até
lhe dediquei um poema que mostrei a uma professora da escola onde
estudava, a qual ficou admirada de eu escrever poesia e sobre temas
como aquele, estávamos em 1973. Fiquei deveras triste com
esta inútil e brutal morte.
Ainda guardo
na memória aquela canto que passava na rádio de
então, “Angola é nossa! Angola é
nossa!...” Era “nossa”, de alguns, e os
nossos jovens lá iam morrendo aos poucos, como carne para
canhão, numa guerra que não era deles.
Lembras-te,
pai?
Quantos
rostos cansados de esperar, de vaguear numa vida sem sentido, com
tanto sonho adiado ou destruído, como o do jovem que morreu
na guerra. Quantas viúvas e órfãos ficaram
à sua sorte, já quase sem lágrimas para
chorarem? E quantas pessoas sem saber ler e escrever sobreviviam
por todas essas terras do nosso Portugal? Foram tempos
difíceis e de memórias amargas!
E nós
morávamos perto da Estação e eu via passar os
comboios e sonhava viajar neles e ser maquinista. Um dia
ofereceste-me, pelo Natal, um comboio de plástico no
sapatinho. Como eu fiquei feliz. Deve-te ter custado uns bons
tostões. Sonhos e recordações de
criança que nos tocam o coração.
Agora, tocas
o bombardino, que refulge ao sol, parece uma estrela que brilha na
minha memória. Talvez toques a “Terra da
Fraternidade...” Quem sabe? Quem sabe?
Enquanto os
teus dedos saltitam pelos “pistons” do bombardino, a
velha oliveira, que está depois de ti, tudo escuta e acena
com um ramo mais jovem, confirmando todas as histórias que
me contas. Ao som da música, recordando...”dentro de
ti, ó cidade...” um arrepio de emoção
percorre-me, por inteiro, todo o ser.
Olha, pai,
até me saiu um poema:
Nasceu nessa
noite,
às três da
manhã
No ventre das
ruas,
a Primavera
No trinar de cada velha
guitarra
Acordes de uma nova
era
Em cada quarto
gelado
O amor numa
canção
Sem medo de o
fazer
No coração
de cada pessoa
Em todas as ruas da
cidade
A alegria de
viver
E nos cabelos
Embranquecidos
Dos poetas
A
flor da Liberdade
“...Dentro de ti, ó
cidade...”
Lembras-te,
pai?
Os sonhos de
Abril, o fim da guerra e dos presos políticos, a Liberdade e
o futuro...
O futuro... O
futuro pertence aos teus netos e aos filhos deles e por aí
fora... A Joana quer ser pianista e o Pedro, arquitecto. A
música e a arquitectura de novos sonhos em liberdade. Eles
poderão não saber escolher, mas têm a liberdade
que tu não tiveste, que nós não tivemos antes
de Abril.
Mas, um belo
dia também tivemos a liberdade de escolhermos e de
plantarmos uma árvore no nosso quintal. Eu estimo-a e,
quando posso, trato dela, rego-a, adubo-a e corto-lhe os ramos
secos, para que ganhe força e cresça. Em troca ela
dá-nos sombra e fruta e refresca-nos nos dias quentes de
Verão. Quando me esqueço de a tratar, ela enfraquece
e fica em risco. A
liberdade é como uma árvore. Temos de cuidar dela
todos os dias, com muito amor e sabedoria. Precisamos saber
escutá-la com todos os sentidos e em todos os sentidos e
falar com ela com carinho, para que cresça, se
fortaleça e dê frutos que nos alimentem a
imaginação e a capacidade de sonhar com um futuro que
satisfaça a todos.
Obrigado,
pai, pela árvore que plantámos e pelo filme que
fizemos juntos. A cassete chegou ao fim no vídeo.
Teu filho que
te recorda com carinho e saudade, por teres partido num dia de
Abril.
Saudades,
pai...
[Autor: Martinho Branco]
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